Entenda como o refluxo crônico pode evoluir para um câncer do esôfago

No Brasil, esse tipo de tumor é o sexto mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres. Segundo Inca, 11.390 novos casos foram registrados em 2020, sendo que mais de 76% foi em homens De um simples quadro de azia constante a um câncer do esôfago. Segundo especialistas médicos, esse é um risco real para quem, ao longo de muito tempo, sofre com a Doença do Refluxo Gastro Esofágico (DRGE), mas não trata o problema adequadamente. No Brasil, o tumor no esôfago (tubo que liga a garganta ao estômago) é o sexto mais frequente entre os homens e o 15º entre as mulheres, excetuando-se o câncer de pele não melanoma, de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). A instituição estima ainda que só no ano de 2020 tenham sido registrados 11.390 novos casos de câncer de esôfago, sendo 8.690 homens (76,3%) e 2.700 (23,7%) mulheres. De acordo com o cirurgião do aparelho digestivo, especialista em endoscopia digestiva e professor da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, Eduardo Grecco, o refluxo quando ocorrido de forma prolongada e não tratado, com crises frequentes, pode levar a doenças mais graves e que complicam o tratamento médico feito de forma tardia. Um desses agravantes é a esofagite,ou seja, inflamação do esôfago. “Essa esofaginte repetida ou sem controle de qualquer tipo de tratamento vai levar a uma agressão da mucosa do esôfago que se torna um processo inflamatório crônico”, explica Eduardo Grecco. Conforme o especialista, a esofagite é o primeiro agravante, quando o paciente não trata seu refluxo. Em seguida, permanecendo o quadro sem tratamento ou tratado de forma errada, o problema irá evoluir para o que os médicos chamam de Esôfago de Barrett, que é uma alteração do epitélio, ou metaplasia intestinal. “O Esôfago de Barret é uma lesão pré-cancerígena, porque se você não tratar, o refluxo continua agredindo aquela mucosa e lá na frente vamos ter uma displasia, que é uma mudança celular com atipia, ou seja, uma mudança da formação ou da conformidade da célula. E dessa displasia, em um outro momento, quando o problema se agrava por cinco, seis, oito ou mais anos, o paciente pode sim a vir a desenvolver o câncer de esôfago”, explica o cirurgião do aparelho digestivo Eduardo Grecco. O especialista alerta também que os pacientes que sofrem com o refluxo de forma crônica, em sua grande maioria, possuem fatores associados que aumentam as chances de doenças graves no trato intestinal, como o uso do fumo, consumo de bebida alcoólica, consumo excessivo de café e chocolate, alimentação rica em gordura e ainda uma predisposição genética. “Então esses aspectos comportamentais e alimentares, associados a esse processo inflamatório crônico, pode levar a uma piora desse quadro de esofaginte, que por sua vez evoluirá para o Esôfago de Barrett e por fim o câncer de esôfago”, ressalta Grecco. Tempo Questionado sobre ao longo de quanto tempo um quadro de refluxo não tratado pode chegar um câncer de esôfago, o cirurgião Eduardo Grecco explica que tal estimativa não é possível de ser feita, já que depende muitas variáveis como a genética, o estilo de vida e a intensidade da agressão sofrida pela mucosa do esôfago. Mas ele alerta que a realização de exames preventivos podem fazer toda a diferença. “No caso de cânceres que atingem o trato intestinal, a recomendação é de que, mesmo não tendo nenhum sintoma, se faça uma endoscopia pelo menos a cada cinco anos, e dependendo da predisposição é necessário fazer esse controle anualmente. Aliás, para qualquer tipo de câncer ou tumor, os médicos recomendam um exame preventivo a cada cinco anos”, esclarece o médico. Segundo Eduardo Grecco, para quem chega a ser diagnosticado com um quadro de Esôfago de Barrett (que é uma lesão pré-cancerosa), é urgente iniciar e manter um tratamento, que irá impedir o agravamento da doença. “Há estudos que mostram que há pacientes que vivem com o esôfago de Barrett até o fim da vida, uma vez que se consegue controlar o refluxo e aí então não haverá a evolução para o câncer de esôfago”, destaca o especialista. Sobre em que fase da vida a DRGE de forma crônica é mais frequente, o médico Eduardo Grecco diz que a faixa etária de ocorrência da patologia é extensa, indo durante quase toda a vida adulta, entre os 18 e 60 anos. “É justamente quando há a mudança de hábitos alimentares, quando se começa a consumir mais álcool, há também a questão do estresse que aumenta”, acrescenta o especialista. Tratamentos De acordo com Eduardo Grecco, 75% dos casos de refluxo são resolvidos com mudanças de hábitos (dieta e atividade física) mais uso de medicações. Porém, ele destaca que um percentual significativo dos pacientes não respondem a essas terapias não farmacológicas e farmacológicas. O médico explica que mesmo com uso de medicamentos e com mudanças de estilo de vida, muitos pacientes ainda mantêm um quadro de refluxo de moderado para grave, então há uma intratabilidade clínica, seja por alterações anatômicas importantes, como hérnias de hiato grandes, em que você precisa partir para o tratamento cirúrgico; ou seja porque há casos mais raros em que só a cirurgia convencional resolve. “Você tem ainda um meio termo entre quando muitas vezes a cirurgia não é indicada, ou a pessoa também não quer ser operada, mas ao mesmo tempo a medicação já não está resolvendo. Nestes casos, a melhor alternativa é a fundoplicatura endoscópica, em que você consegue melhorar anatomicamente a região, num procedimento não cirúrgico, minimamente invasivo, com rápida recuperação”, esclarece o especialista ao citar o procedimento endoscópico com o dispositivo médico Esophix, tratamento que foi recentemente aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além desse novo tratamento, o médico cita outras alternativas, como a cirurgia convencional, indicada em casos muito específicos e após um detalhado diagnóstico. Também como procedimento não cirúrgico há a radiofrequência não ablativa no sistema Stretta, que trata o músculo ou esfíncter inferior.


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